Confira análise: de volta à crise, depois da Black Friday e do Natal

03 . dez . 2015 Imprimir esse Artigo

Após ficarem semivazias por meses, as ruas tradicionais do comércio de São Paulo começam a ganhar mais movimento neste começo de mês.

Isso não quer dizer que as lojas voltaram a ficar lotadas. Tanto que as placas de ‘aluga-se’ e ‘passo o ponto’ continuam proliferando até em bairros mais nobres da cidade.

O aumento no fluxo de clientes, que pode ser reflexo do pagamento da primeira parcela do 13º salário, deve ser visto como um alívio momentâneo para os comerciantes, a menos de um mês para o Natal.

A queda de vendas, na comparação com o ano passado, chega a dois dígitos, de acordo com vários indicadores do comércio. Nem a Black Friday ou a Black Week, ações promocionais que levam o comércio a cortar os preços em até 80%, devem inverter muito este quadro.

De acordo os organizadores, as vendas durante a Black Friday atingiram R$ 1,5 bilhão, um valor acima das previsões iniciais. Diante disso, é possível imaginar um enfraquecimento no movimento até o Natal.

Tudo indica que as vendas, na melhor das hipóteses, devem cair entre 6% e 8% neste ano em relação a 2014, de acordo com estimativa de Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

O comércio depende de emprego e renda, dois indicadores nada positivos que tendem a piorar ainda mais.

A taxa de desemprego atingiu 7,9% em outubro -um salto em relação a outubro de 2014 (4,7%). E o rendimento médio do trabalhador caiu 5,1%, no período, de acordo com o IBGE.

Lojistas consultados nesta semana pelo Diário do Comércio até que se mostram mais animados do que há dois meses ou três meses durante o lançamento da coleção Primavera-Verão.

“Neste mês, as vendas melhoraram um pouco, mas ainda estão bem abaixo do que é comum para este período”, afirma Nelson Tranques, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro, com 160 associados.

Para ter uma pequena melhora nas vendas, as lojas estão intensificando as promoções de uma forma nunca antes vista no comércio de São Paulo, ainda mais numa época como esta, quando a demanda costuma ser mais alta.

“No passado, um produto ou outro entrava em oferta, agora é a coleção toda. As confecções estão utilizando muito as redes sociais e o WhatsApp para atrair os lojistas”, afirma Tranquez.

Com 12 anos, a Consciência Jeans, confecção instalada no Brás, apelou para mimos à clientela. A empresa reformou os dois pontos de venda, colocou no meio da loja uma cadeira de massagem, café e serviço de transporte gratuito para os lojistas que chegam ao aeroporto.

“Todo o transporte da mercadoria agora é pago por nós. Quando o quarto está escuro, quem ascender o isqueiro vai ser visto”, diz Hadi Hamade, sócio proprietário da empresa.

Com essas ações e com a alta do dólar, que resultou na queda da importação de jeans, a empresa tem conseguido até vender neste final de ano mais do que em 2014.

A Dinho’s Jeans, outra confecção do Brás, ainda não conseguiu repetir o mesmo desempenho de 2014, mas também constatou uma melhora nas vendas a partir da última semana. Clientes da Bahia, Ceará, Piauí vieram para a loja atrás de bermudas, calças e camisas.

“Sábado passado (21/11) o movimento foi muito bom, o que está fazendo a gente acreditar um pouco mais numa melhora nas vendas. Na comparação com setembro, as vendas subiram 15%”, diz Fauze Yunes, sócio-proprietário da Dinho’s Jeans.

A Íntima Store, confecção de lingerie com duas lojas no Brás, também registrou melhora nas vendas neste mês, mas, ainda assim, está com faturamento menor do que no ano passado.

O tíquete médio da loja, que era da ordem de R$ 150, caiu para 135 neste ano. “Estamos trabalhando com descontos permanentes para não perder vendas”, afirma Jean Makdissi Jr, sócio-proprietário da Íntima Store.

Tradicionalmente, as vendas no comércio em dezembro aumentam entre 20% e 30% em relação a novembro. O que o comércio espera é um aumento de 15%.

O mês de janeiro, geralmente, as vendas caem entre 30% e 40% na comparação com dezembro. “O lojista vai ter de dar um jeito para enfrentar uma queda que pode ser maior do que essa”, diz Alfieri.

O que os comerciantes têm até medo de pensar é como vão enfrentar o primeiro trimestre de 2016, que tende a ser o pior da história do comércio paulista.

O 13º já terá evaporado e tudo indica que o desemprego vai aumentar e a renda, cair. O consumidor ainda terá de arcar, como todo início de ano, com o pagamento de IPTU, IPVA, a matrícula da escola, o material escolar. “Vai ser o pior momento para o varejo”, diz Alfieri.

Neste ano, os lojistas já tiveram de cuidar muito mais da gestão do negócio para sobreviver. O consumo despencou e os custos subiram. Lojas de todos os tamanhos fizeram ajustes que resultaram em fechamento de pontos de venda e demissões.

Em 2016, na avaliação de especialistas de varejo, esse processo deve continuar. Os lojistas terão de redobrar a atenção com o fluxo de caixa, melhorar a produtividade.

A sugestão é que, desde já, os comerciantes corram atrás de renegociação de contratos de aluguel, se ainda não fizeram isso, e estudem novas formas de cortar custos.

Os shoppings têm dado descontos de até 40% nos preços dos aluguéis para evitar que o lojista feche as portas, de acordo com Nelson Barrizzelli, consultor de varejo.

“O que os comerciantes têm de fazer agora é evitar grande sortimento, e comprar mercadorias que têm alto giro. É hora de economizar luz, água. Se for o caso, trocar as lâmpadas que consumem mais energia para as que consomem menos. Tudo fará diferença”, diz Barrizzelli.

O comércio deve se preocupar mais, ainda de acordo com o consultor, com o treinamento de vendedores e trabalhar cada vez menos com custos fixos e mais com custos variáveis.

O raciocínio é o seguinte: se o vendedor vende mais, ele ganha mais. Se a loja fatura mais, ela paga mais para o shopping, e vice-versa. Numa situação de crise, não dá para assumir compromissos sem ter a certeza de dinheiro em caixa.

“O lojista precisa prestar atenção em estatísticas de vendas perdidas. Se o cliente entra na loja e não leva nada, ele perdeu venda. É preciso saber a razão pela qual a venda não foi feita e tentar reduzir as perdas”, diz Barrizzelli.

Austeridade e criatividade devem ser as palavras de ordem dentro das empresas desde já e mais ainda em 2016, na avaliação de Gustavo Carrer, consultor de varejo do Sebrae SP .

Austeridade no controle de custos e nas compras, para evitar os altos estoques, e criatividade, diz ele, nas promoções para trazer os clientes para dentro das lojas.

“É o momento também de avaliar os custos com manutenção de softwares, telefonia, internet. As empresas que estão com dificuldades financeiras, muito endividadas, não vão sobreviver ”, diz Carrer.

Tradicionalmente, as vendas no comércio em dezembro aumentam entre 20% e 30% em relação a novembro. O que o comércio espera é um aumento de 15%.

O mês de janeiro, geralmente, as vendas caem entre 30% e 40% na comparação com dezembro. “O lojista vai ter de dar um jeito para enfrentar uma queda que pode ser maior do que essa”, diz Alfieri.

Fonte: Diário do Comércio / FOTO: Rovena Rosa/Agência Brasil

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