Escambo contemporâneo: como usar permutas corporativas

by Luciana Felix | 29.05.2017 16:45

A empreendedora paulistana Ana Paula Porto, dona da Dress&Co, atacadista de moda feminina, costuma realizar eventos anuais para o lançamento das coleções da marca.

Um evento corporativo para cerca de 200 pessoas costuma custar aproximadamente R$ 50 mil, em espaços como a Villa Bisutti, empresa referência em solenidades de alto padrão em São Paulo.

Nos últimos anos, os eventos realizados pela Dress&Co não têm sido pagos em dinheiro. Mas com produtos da marca. Desde de 2012, a empresa participa de duas redes de permutas corporativas.

As principais intermediadoras de permutas corporativas, a Tradaq e a Permute, tiveram crescimento médio superior a 20% ao ano nesses tempos de recessão econômica.

O conceito utilizado pelas intermediadoras é baseado em reunir inúmeras empresas de diferentes segmentos numa associação para facilitar a troca de produtos e serviços entre os negócios.

As redes utilizam o sistema de permuta multilateral, conceito que tem como vantagem evitar um problema comum dos antigos métodos de troca: a necessidade de comum acordo entre as duas partes para realização da transação.

Na prática, funciona assim: uma empresa de TI, por exemplo, presta serviços técnicos para um escritório de contabilidade. O pagamento é realizado em créditos dentro da plataforma das intermediadoras, que funciona como uma conta bancária.

Com o saldo, a empresa associada pode adquirir qualquer produto de outras empresas da rede, como passagens aéreas, refeições em restaurantes ou serviços de dedetização, por exemplo.

Na Dress&Co, além dos eventos, a empresa utiliza os créditos para compra de móveis, brindes para clientes e fornecedores e produtos para os funcionários, como cestas de alimentos.

“Já realizamos mais de 100 transações”, afirma Ana Paula.

QUANDO É UM BOM NEGÓCIO

Um dos benefícios da permuta é a possibilidade da empresa adquirir bens e serviços sem ter de retirar dinheiro do caixa. O acúmulo de créditos também permite que as compras sejam programadas previamente.

Outra vantagem é usar o sistema em épocas de poucas vendas. Para não deixar funcionários e equipamentos ociosos, a empresa pode continuar operando por meio das negociações dentro da rede.

Lojas de varejo também podem recorrer às permutas para equilibrar os estoques. Embora tenha atuação principal como atacadista, a Dress&Co oferta peças nas plataformas de permuta para os donos das empresas, que compram os itens para uso próprio, para funcionários ou para oferecer como presentes.

“Aos finais das temporadas, intensificamos a permuta com o objetivo de desovar o nosso estoque para atender o consumidor final com peças da nova coleção”, afirma Ana Paula.

De acordo com a empresária, uma das clientes de permuta está a dona da fabricante de chocolates Kopenhagen. A Dress&Co também confeccionou uniformes para empregados dos bares O Pasquim e Karavelle e da rádio Kiss.FM.

Tanto a Tradaq como a Permute tem como clientes empresas de mídia digital, impressa e rádios. Esse leque de abrangência possibilita ao empreendedor usar a permuta para investimentos em propaganda – serviço pouco acessível para pequenas empresas.

Há 21 anos, Marcos Contrera dirige um escritório de arquitetura e decoração, que leva o seu nome. O empreendedor criativo, que também é artista plástico, utiliza a permuta, principalmente, para adquirir serviços de publicidade, recrutamento e seleção e TI.

No ano passado, a Contrera lançou o site do escritório após trocar pontos com Grupo DPG, especializado em criação e desenvolvimento web.

O empresário conta que também utiliza seus créditos na plataforma da Tradaq para fins pessoais, como a compra de ingressos para assistir shows, peças teatrais e sessões de cinema.

CUIDADOS CONTÁBEIS E JURÍDICOS

A permuta não altera a natureza comercial da operação. Então, as transações precisam de emissão de nota fiscal e assinatura de contrato entre as partes.

“É uma transação comercial como qualquer outra”, afirma Koen de Beer, diretor da Tradaq. “O que muda é apenas a forma de pagamento.”

É recomendado que as empresas ofertem os produtos em permuta com os mesmos preços oferecidos para os clientes fora da rede.

No entanto, não é indicado ofertar itens ou serviços de margem baixa, pois o lucro pode ser corroído pela comissão e planos de adesão cobrados pelas intermediadoras.

Na Permute, a comissão é de a partir de 5% sobre o valor da transação. No último ano, a empresa intermediou mais de 8.500 permutas, que movimentaram cerca de R$ 30 milhões.

ORIGEM DA PERMUTA

As trocas de bens e serviços sem envolvimento de dinheiro é conhecida por escambo – a origem do comércio. Arqueólogos sugerem que a prática já era usada na pré-história, no período neolítico, que marca o surgimento da agricultura (aproximadamente há 10.000 anos).

Na época, agricultores e criadores de animais trocavam entre si excedentes de produção.

Já no século XVI, o escambo foi largamente utilizado entre europeus e índios do litoral brasileiro. Os nativos davam madeira de pau-brasil aos portugueses, espanhóis e franceses. Em troca, os indígenas recebiam itens como facas, machados, espelhos e miçangas.

Como provou a história, o negócio não foi nada justo para o povo de Pindorama (nome de origem tupi-guarani que os nativos usavam para designar as terras brasileiras na época do descobrimento).

Quase 500 anos depois, com nova roupagem, o escambo se tornou um recurso que ajudou as empresas a atravessar a crise.

Fonte: Diário do Comércio

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