‘Sobra’ no orçamento das famílias brasileiras em abril é o menor desde 2009

19 . maio . 2015 Imprimir esse Artigo

A sobra no orçamento das famílias brasileiras depois do pagamento dos gastos essenciais chegou ao menor nível em seis anos. Cálculo da Tendências Consultoria a partir do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — a inflação oficial no país — mostra que a renda disponível foi de 36,1% em abril, a menor taxa para o mês desde os 35,8% de 2009.

O indicador desconta os gastos fundamentais, como alimentos e transportes, por exemplo, mas não leva em consideração outros tipos de despesas — como empregada doméstica ou diarista e cabeleireiro, entre outros — nem o pagamento de dívidas ou de financiamento imobiliário. Analistas ressaltam que, ao contabilizar todos os itens, a folga no orçamento tende a ser ainda menor.

O cálculo da Tendências mostra que nas famílias com renda de até cinco salários mínimos a renda disponível era de apenas 32,7% no mês passado, o menor nível desde os 32,2% de abril de 2009.

Ao mesmo tempo em que os gastos do dia a dia pressionam o orçamento, o endividamento avança. O comprometimento das famílias brasileiras com o pagamento de dívidas chegou a 22,36% em março, segundo dados do Banco Central, a maior taxa para março desde 2012, quando foi de 22,70%. Para se ter uma ideia, bancos permitem que as famílias comprometam até 30% de seu orçamento com crédito imobiliário. Os gastos com bens essenciais e o endividamento, no entanto, não podem ser somados para saber quanto sobra no bolso. Isso porque, alguns desses gastos podem ser sobrepostos. Uma compra de alimentos no cartão de crédito, por exemplo, pode ser uma despesa com bem essencial e também uma dívida.

"É preciso lembrar que, se a pessoa está endividada, isso tem um impacto adicional no orçamento. Em geral, as pessoas não têm renda sobrando, a não ser em famílias de muita alta renda, e mesmo para essas, a sobra está cada vez menor", afirma o professor da PUC-Rio Luiz Roberto Cunha.

Menos recursos para o lazer

O indicador de renda disponível representa o percentual do orçamento das famílias que fica liberado após pagar itens fundamentais, divididos em seis grupos: habitação (aluguel, energia elétrica e gás), transportes (combustíveis e transporte público), comunicação (telefone e internet), saúde e cuidados pessoais (medicamentos e serviços de saúde, como planos e exames), educação e alimentos. Isso significa que ficam de fora gastos considerados supérfluos, como recreação, vestuário e cabeleireiro, por exemplo.

O levantamento é feito a partir dos pesos de cada item no orçamento, que é baseado na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, que orienta o cálculo da inflação.

"As famílias estão com o orçamento mais apertado. Quando se olha para a série histórica, essa queda da renda disponível é relevante. O problema é que os preços que mais estão subindo são aqueles dos quais o brasileiro não pode escapar, como energia e transporte", explica o economista da Tendências João Morais.

Principal influência da inflação em 2015, o preço da energia elétrica subiu 38,12% até abril e 59,93% nos últimos doze meses. Os preços de transportes, por sua vez, tiveram alta de 6,86% entre maio de 2014 e abril de 2015, para um aumento de 8,17% do IPCA no período. Os preços administrados — de tarifas públicas — são a maior pressão para o aumento da inflação este ano, com alta acumulada de 13,39% em doze meses. Já o preço de alimentos avançou 7,95% no período.

"Quando se gasta mais com energia, combustível e outros gastos do dia a dia, sobra menos para as despesas que dão sabor à vida, como lazer. O que estamos vendo é que a parte livre do orçamento, que se pode gastar com coisas à sua escolha, está se reduzindo", diz o professor da FEA/USP Heron do Carmo.

Fonte: Varejista.com

CATEGORIAS
Economia SindiVarejista