As duas faces da classe média brasileira

29 . jul . 2011 Imprimir esse Artigo

Com o aquecimento na economia, 31 milhões de brasileiros passaram a pertencer à classe média. Essa camada populacional, que agora abrange 100 milhões de pessoas, é heterogênea, de diferentes estilos, hábitos de compra e preferências. Existem hoje dois tipos de classe média no Brasil – a "antiga", e a "nova", de acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). O assunto despertou até o interesse da imprensa internacional – o diário econômico britânico Financial Times publicou reportagem sobre o tema nesta semana.

Nas ruas de São Paulo não é difícil encontrar representantes dos dois mundos que, apesar de parecerem distantes entre si, são formados por pessoas que se sentem pertencentes à mesma classe média. A dona de casa Rosa Maria Barbon Vieira afirmou que o valor da renda da sua família dobrou nos últimos três anos, para aproximadamente R$ 2,6 mil.

Nesse período, ela pôde fazer seu primeiro cruzeiro para Ilhéus (BA); instalou internet de banda larga em casa; trocou todos os eletrodomésticos; e passou a escolher nos supermercados as marcas de alimentos que sempre quis consumir. Até a neta de Rosa, Maria Eduarda, de oito anos, comemorou: "Minha avó me dá tudo o que eu peço", disse. "Eu comprei até um netbook – apesar de não usar muito, é bom ter em casa", afirmou Rosa.

No centro da cidade, caminhando perto de Rosa,  está a professora de educação física Vivian Carvalho – que também disse pertencer à classe média e que tem renda mensal, que não revelou, superior à dela. Ela percebeu, porém, algumas mudanças sociais nos últimos tempos que a afetam: os restaurantes e casas noturnas que sempre frequentou estão mais lotados, principalmente nos tradicionais dias de pagamento. "A impressão que dá é que as pessoas que não tinham acesso a certos lugares começaram a visitá-los – não sempre, só uma vez por mês." Além disso, Vivian observa os aeroportos mais lotados e o congestionamento de trânsito piorando a cada dia. "Isto porque as vendas de carros não param de crescer", analisou.

Grifes de elite

Mas a professora de educação física notou que a qualidade de vida dela também melhorou. Vivian continua consumindo produtos Avon, mas agora escolhe itens também da marca mais sofisticada, Revlon. Além das peças das lojas C&A e Renner, ela passou a consumir grifes bem mais caras: M.Officer, Louis Vuitton e os sapatos da Santa Lolla. "Não só as pessoas que passaram a ser da classe média tiveram progressos. Talvez para eles o sucesso apareça mais. Mas a população, de forma geral, ganhou com a melhora na economia", afirmou a integrante mais antiga da classe média.

A análise da professora de educação física está correta, de acordo com o coordenador do centro de pesquisas sociais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro( FGV-RJ), Marcelo Neri, que estuda a classe média. O seu trabalho foi citado na reportagem do FT.

Para ele,  "nova classe média" é um apelido dado à classe C de anos atrás. "Chamar a pessoa de classe C soava depreciativo, pior que classe A ou B. A nova classe média difere também, em espírito. do termo "nouveau riche" (novo rico), que acima de tudo discrimina a origem das pessoas", disse.

Sua pesquisa demonstrou que a renda per capita dos 50% mais pobres cresceu 68% entre 2000 e 2010; já o aumento dos considerados mais ricos foi de 10% no período. Segundo Neri, a nova classe média começou a "aparecer" em 2004, após a recessão. "Trata-se da geração do emprego formal. O símbolo da classe C não é o carro, ou o celular, mas a carteira de trabalho assinada".

Ele disse que a expectativa é de que, entre 2009 e 2014, a desigualdade continuará diminuindo. "Todos estão melhorando de vida. Nem as medidas restritivas ao consumo do governo federal poderão frear a tendência. O investimento, agora, é prioridade, para que não exista um apagão de mão de obra", concluiu Neri.
Otimismo moderado do consumidor

O Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (Inec) de julho, calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ficou em 113,2 pontos, com elevação de 1,3% em relação aos 111,8 pontos de junho, o que representa maior otimismo entre os consumidores brasileiros. "O crescimento do índice em julho foi causado principalmente pela redução da preocupação dos consumidores com a inflação&quoquot;, explicou o economista da CNI Marcelo Azevedo.

Em julho, 61% dos entrevistados disseram acreditar que haverá aumento inflacionário, enquanto em junho esse percentual era de 69%. Apesar da recuperação no mês, o Inec de julho ficou abaixo do de julho de
2010, com 116,8 pontos.

O índice referente à expectativa do consumidor em relação à inflação, que marcava 100,4 pontos em junho, subiu para 108,6 pontos. O indicador relativo à expectativa de desemprego, que havia ficado em 130,6 pontos em junho, caiu para 129,3 pontos neste mês. O índice de expectativa de renda pessoal avançou de 112,1 pontos para 114. O de situação financeira, que havia ficado em 111,7 pontos, no mês passado, aumentou para 113,7. O índice de endividamento, que havia ficado em 105,6 pontos em junho, subiu para 106,9 pontos neste mês. Mas o de compras de bens de maior valor caiu de 111,9 pontos no mês passado para 110,8 agora.

Todos os seis indicadores de julho, entretanto, caíram ante julho de 2010. "As expectativas para os próximos seis meses acerca de inflação, desemprego, renda e compras são menos otimistas que em julho de 2010", cita documento da CNI.

Fonte: Diário do Comércio

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