Crise política não deve alterar a rota do varejo no curto prazo

12 . jun . 2017 Imprimir esse Artigo

A crise política deflagrada com as delações dos donos da JBS foi um balde de água fria para as expectativas de empresários de diversos setores, que começavam agora a sentir os efeitos ainda pequenos da recuperação econômica.

Os primeiros sinais de melhora apareceram no comportamento da inflação – a prévia de maio do índice oficial ficou em 3,77% em 12 meses, o que continua a fortalecer a redução da taxa básica de juros (Selic).

Para que a recuperação continue será preciso a aprovação de reformas importantes para o setor privado, principalmente a Trabalhista, que permitirá no curto prazo a retomada do investimento e do emprego, e posteriormente da Previdência – para restabelecer a confiança e colocar as contas públicas nos trilhos no médio e longo prazos.

Essa é a leitura de empresários de diversos setores que participaram de uma reunião fechada na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Mas até que ponto essa crise pode influenciar negativamente as vendas do varejo, um setor que está apanhando ao longo da recessão?

Uma simulação feita por economista da ACSP, considerando um cenário de piora da confiança do consumidor (como o vivido no período que antecedeu o impeachment de Dilma Rousseff) mostra que – ao menos até dezembro – a tendência para a evolução das vendas do comércio não se alteraria. Esse cenário considera, no entanto, a aprovação das reformas.

Por esses cálculos, as vendas terminariam o ano com queda de 1,5%, considerando o comércio do Estado de São Paulo. Na apuração de fevereiro na mesma base de dados, as vendas no Estado caíam 5,1% no período de 12 meses.

A redução das quedas das vendas já representa, nesse sentido, o início de uma recuperação gradual, à espera da volta do ânimo do consumidor.

A confiança do consumidor, medida pelo Instituto Ipsos e ACSP, passou de um patamar de 66 pontos para 68 pontos de abril para maio – segundo apuração realizada antes das delações.

Os números indicam que o consumidor ainda está preocupado com a alta taxa de desemprego no país, o que leva a crer que a recuperação econômica terá de vir antes da retomada da confiança.

Setores resilientes, porém, continuam registrando números positivos, como é o caso de pequenas farmácias, cujas vendas cresceram 4,2% em maio na comparação com igual período de 2016.

O e-commerce teve crescimento de 9% no faturamento nos primeiros quatro meses do ano sobre igual base de 2016, e elevação de cerca de 5% no tíquete médio de compras, que hoje está em torno de R$ 450.

Um dado que chamou a atenção dos participantes da reunião foi que as vendas pelo celular já representam 25% do universo de consumo online.

Apesar de uma retração de 8% nas vendas do comércio de materiais de construção em 12 meses até abril, esse varejo apresentou um crescimento de 3% no primeiro quadrimestre deste ano, frente a igual período do ano passado.

A expectativa é de um aumento das vendas do comércio formiguinha (aquele voltado a materiais para reformas residenciais), por causa do Cartão Reforma, projeto do governo para beneficiar o consumo desses produtos pelas famílias, já que o mercado de grandes obras ainda não reaqueceu.

Nos supermercados, por outro lado, houve queda de 3,4% de janeiro a abril deste ano ante o mesmo intervalo do ano passado.  Uma pesquisa realizada após as delações mostra que a confiança de empresários do setor ficou abalada.

Apenas 35% se mostraram otimistas com o momento político e econômico atual ante a 39% no mês anterior.

Segundo representante de entidade que reúne estabelecimentos do setor, apenas na região de Ribeirão Preto houve aumento de 1,6% nas vendas no mesmo período de comparação, já que se trata de uma região forte na agricultura.

AGRICULTURA E INDÚSTRIA

A expectativa é que o crescimento da economia será impulsionado, de fato, pela agricultura e setores exportadores.  A safra de grãos está estimada em torno de 220 milhões de toneladas nesse ano – um aumento de 25% sobre o ano anterior.

A cotação do dólar ajudou os exportadores do setor de soja. Mas, no campo, os sinais de crise estão mesmo na pecuária, que foi afetada por causa da pulverizações das negociações em um mercado sobre o qual há forte concentração da JBS que, segundo participantes da reunião, teria passado a pagar pelo boi a prazo, em vez de a vista.

Outro setor que passa por recuperação, em boa parte puxada pelo agronegócio e bens de capital, é a indústria, cuja produção saiu de um recuo de 9,7% em fevereiro para retração de 3,8% em março, no intervalo interanual.

Apesar disso, o ritmo de recuperação das vendas da indústria é mais lento, pois depende do mercado interno. Na avaliação de representantes da indústria, as exportações devem continuar direcionando o reaquecimento das vendas de bens duráveis, automóveis e bens de capital.

Fonte: Diário do Comércio

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