Varejo deve priorizar inovação e atendimento, diz Luiza Trajano. Veja entrevista

07 . out . 2015 Imprimir esse Artigo

Mesmo com a retração da economia afetando o varejo, Luiza Helena Trajano, pesidente do grupo Magazine Luiza – quinto maior varejista do Brasil – se diz otimista.

Com crédito escasso, juros altos e inflação assustando, o setor varejista freou as vendas de eletrodomésticos da linha branca, como geladeiras e lavadoras, após uma década crescendo muito além do PIB brasileiro e amarga números preocupantes. A queda foi de mais de 11% no primeiro semestre, segundo a associação de fabricantes.

Com 777 lojas, 9 centros de distribuição em 16 Estados e faturamento de R$ 12 bilhões em 2014, Luiza tem apostado no patrocínio do futebol brasileiro e em promoções, que vão desde a facilidade de financiamento dos produtos até sorteios de condomínios.

Aliada da presidente Dilma Rousseff, ela evita falar em política, mas defende o ajuste fiscal com ressalvas.

Folha – A sra. faz parte do grupo Mulheres do Brasil e até ensaiou uma vida política ao ser cotada para o ministério da Micro e Pequena Empresa. Como concilia com a empresa?

Luiza Trajano – Tento descentralizar, delegando responsabilidades. O CEO cuida mais a fundo dos negócios, o que dá mais tempo de participar do grupo mulheres e dar palestra.

O Brasil ocupa o lugar 121º no ranking de participação das mulheres na política. No mercado de trabalho, elas recebem 70% do que os homens. Por que isso acontece? E o que as próprias mulheres deveriam fazer para mudar?

A cultura é machista. Mas isso está mudando, não na velocidade em que a gente quer. As mulheres estão mais informadas e são as principais tomadoras de decisão de compra nos lares. Os grupos em que atuo lutam para que elas tenham cotas em conselhos de empresas, um processo transitório para acertar uma desigualdade histórica. Apenas 8 em cada 100 profissionais de alto escalão nas empresas do Brasil são do sexo feminino.

A sra. foi indicada pela presidência como representante da União no Conselho Público Olímpico para os jogos de 2016. Como é a sua relação com a presidente Dilma?
Esse é um momento complicado para a política brasileira e não quero falar. Sobre o comitê, a Olimpíada vai gerar emprego, movimentar o comércio e mobilizar o Brasil. É uma maneira de ser político sem ser partidário.

As ações do governo federal, como alta de juros e a escassez de crédito, têm minado o varejo. Como avalia estas ações do governo para conter a crise?
Estou torcendo para funcionarem. Não gostaria que houvesse aumento de imposto, mas temos que acertar o juste fiscal sem travar o consumo. Como fazer, não sei. Coisas boas foram feitas principalmente para o pequeno empreendedor como o aumento de empresas no Simples Nacional (regime tributário diferenciado que contempla empresas com receita bruta anual de até R$ 3,6 milhões) o que melhora a arrecadação do país, além de dar fôlego para que os pequenos negócios não morram.

Muitos consumidores deixaram de comprar bens duráveis para priorizar os de primeira necessidade. O varejo sentiu essa queda?
O consumidor deixou de comprar de modo geral, inclusive no supermercado por que estão com medo da recessão e de perder emprego. O índice de confiança que o IDV acompanha é o mais baixo dos últimos 15 anos. Isso freia a economia de modo geral. Mas acredito que seja passageiro e o ritmo de crescimento vai voltar. O Brasil precisa construir 23 milhões de casas em dez anos para ter um nível adequado de igualdade social. Só 54% dos brasileiros têm máquina de lavar. No Nordeste, este índice cai para 27%. Imagine o quanto de geladeira, televisão e eletroportátil eu posso vender?

Segundo a Serasa Experian, a inadimpplência tem aumentado, já são mais de 56,4 milhões de pessoas com dívidas. O que o Magazine Luiza tem feito em relação a inadimplência?
Tentamos flexibilizar as condições para não pesar para o cliente. Estou conversando todos os dias com os meus fornecedores focando em produtos que vendem mais e melhores condições. Fomos a primeira empresa a chamar um banco para ser sócio nosso na área financeira, a LuizaCred. Fechamos o ano passado com 12 bilhões, 70% disso com vendas a prazo em um momento em que o crédito está escasso. Sem uma instituição financeira por traz seria muito difícil atingir esse número.

Quais as estratégias que o Magazine Luiza está adotando para aliviar a pressão da retração da economia?
Fazer mais com menos. Fazer menos com menos todo mundo faz e em tempos de crise é um perigo cortar luz, propaganda e alguns gastos. Assumi o comitê de expansão e disse que tínhamos que diminuir 25% do custo trabalhando na cadeia produtiva e reduzmimos 55%. Ano passado, quando começaram a falar da crise, nós apostamos em ser patrocinadores da Copa do Mundo. Assumimos o risco de patrocinar a Copa em um momento em que as ruas não queriam o evento. O resultado foi que tivemos o melhor ano da história. Também estamos adotando cada vez mais a multicanalidade, migrando de uma empresa com pontos físicos para o digital. Mas não vamos abandonar as lojas, 57% das pessoas ainda compram em lojas físicas.

O Black Friday faz parte do calendário de ações para incentivar o consumidor. Comparado com o Natal, a sra. considera que a primeira já se tornou mais importante nas vendas?
Não, o Natal e o Dia das Mães são os melhores por força da data, mas o BF já faz parte do cronograma de promoções e ofertas dos principais varejistas do Brasil. Esta semana é de briquedos por conta do Dia das Crianças e estamos focando nestes produtos que vendem bem nesta época.

A sra. lida com vários setores da economia e já propôs parcerias entre a indústria e o varejo para vender mais. Como seus fornecedores foram atingidos pela crise?

Também estão sentindo. Tenho contato com muitos empresário do setor e em tempos de crise eles me ligam e dizem “Luiza, precisamos de você”. Digo sempre que temos que investir em atendimento e inovação. Tenho 777 lojas espalhadas pelo Brasil, mas não deixo de ir falar pessoalmente com o cliente, a única coisa operacional que não abro mão é o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC).

Com a situação da economia, a sra. ainda mantém os planos de expansão orgânica ou por meio de aquisições?
Nossa empresa está listada na Bolsa de Valores e estamos em período de silêncio, por isso não podemos falar sobre projeções de crescimento.

Esta crise pode, de alguma forma, ser boa para o varejo no futuro?
Sem dúvida nenhuma. Algumas pessoas me dizem que esta é a pior crise da história e que o cenário é alarmante. Eu já peguei tantas crises e em todas sai fortalecida. Veja, em 1990, com o Plano Collor, cada brasileiro só tinha 50 mil cruzeiros por dia na poupança; em 1993, o Cruzeiro Real que cortou três zeros da moeda; em 2001 passei pelo racionamento de energia em que os jornais diziam para a população não comprar micro-ondas porque consumia muita energia; em 2006 foi o Mensalão, só pra citar alguns. Passei por seis trocas de moeda, hiperinflação, abertura econômica e 18 presidentes do Banco Central. No final de cada crise saí mais forte. Ano passado tivemos nosso melhor ano, fechamos com R$ 12 bilhões, 777 lojas em 16 estados, oito centros de distribuição, 24 mil funcionários e 36 milhões de clientes.

Apesar das incertezas da economia, a sra. é uma das empresárias mais otimistas do país neste momento. De onde extrai todo este otimismo?
Costumo dizer que meu cérebro é treinado para soluções, nesse momento eu não quero mais surfar essa onda negativa que está arrastando todo mundo. Não aguento tanta reclamação, o papel do empreendedor é fazer mais com menos. Tenho lojas que já cobriram todas as cotas este ano. Esta não é a primeira nem será a última crise.

O que o governo deve fazer para que o país volte ao ritmo de crescimento?
Destravar a economia acertando o ajuste fiscal sem aumento de imposto. Como fazer isso? Este é o nosso questionamento.

Fonte: Folha de São Paulo

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