Supermercados e farmácias, por atenderem necessidades básicas da população, devem continuar sustentando uma parcela importante do volume de vendas
O ano de 2026 se apresenta como um dos períodos mais desafiadores para o comércio varejista nos últimos tempos. Já ao longo da segunda metade de 2025, começamos a sentir com mais intensidade os efeitos de um ambiente macroeconômico marcado pela desaceleração do consumo, cenário que deve se consolidar no próximo ano.
O varejo é um dos setores mais sensíveis às condições econômicas, pois depende diretamente da renda disponível, do acesso ao crédito e da confiança das famílias. Com juros elevados, inflação acumulada e um consumidor cada vez mais cauteloso, os impactos são quase imediatos. Em 2026, a tendência é de perda de fôlego do consumo, com crescimento mais lento das vendas e pressão constante sobre a rentabilidade das empresas.
A política monetária restritiva, com taxas de juros ainda altas, amplia esse desafio. O crédito mais caro afeta diretamente as compras parceladas, reduz o tíquete médio e alonga o tempo de decisão do consumidor. Além disso, o comprometimento da renda das famílias com dívidas já assumidas limita o espaço para novos gastos. Mesmo com um mercado de trabalho relativamente resiliente, o comportamento do consumidor tende a ser mais conservador, priorizando despesas essenciais e adiando aquisições de maior valor.
Nesse contexto, os segmentos considerados essenciais devem apresentar maior estabilidade relativa. Supermercados e farmácias, por atenderem necessidades básicas da população, devem continuar sustentando uma parcela importante do volume de vendas. No entanto, isso ocorrerá em um ambiente de margens cada vez mais apertadas, forte concorrência e consumidores mais atentos a preços, promoções e marcas mais acessíveis, além da redução do consumo por unidade.
Por outro lado, os segmentos de bens duráveis e semiduráveis devem enfrentar um cenário significativamente mais adverso. Setores como eletrodomésticos, móveis, materiais de construção, vestuário e artigos para o lar são fortemente dependentes do crédito e, portanto, mais impactados pelos juros elevados. A contenção dos orçamentos familiares leva ao adiamento de compras, à substituição por produtos mais simples e à redução do volume vendido. Tudo isso ocorre em um contexto de margens já pressionadas, menor escala de vendas e necessidade crescente de ações promocionais para estimular o consumo.
Os números reforçam essa cautela. Em 2025, o faturamento bruto do varejo paulista — e também da região de Campinas — acumulou crescimento em torno de 5%. Para 2026, a projeção é bem mais modesta, com avanço que não deve ultrapassar 2%. Diante desse cenário, a gestão operacional exigirá do empresário varejista ainda mais disciplina, planejamento e estratégia.
A principal recomendação é o reforço no controle de estoques, evitando excessos e priorizando produtos de maior giro. A gestão financeira torna-se ainda mais crítica, com atenção permanente ao fluxo de caixa e à negociação de prazos com fornecedores. Os investimentos devem ser criteriosos, focados em eficiência operacional, uso inteligente de dados para compreender melhor o comportamento do consumidor e estratégias comerciais analisadas caso a caso.
Em um ano de crescimento limitado, a sobrevivência e a competitividade do varejo estarão menos associadas à expansão e mais à capacidade de adaptação, controle de custos e proximidade com o cliente final. O desafio é grande, mas o varejo brasileiro, e especialmente o de Campinas e região, já demonstrou ao longo de sua história que sabe se reinventar diante dos cenários mais adversos.
Por Sanae Murayama Saito, presidente do SindiVarejista de Campinas e Região
Fique por dentro das novidades do SindiVarejista.
=> Cadastre-se no nosso Boletim de Notícias. Basta preencher o formulário ao final da página.