O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil, incluindo propostas como o fim da escala 6×1 e a diminuição da carga semanal para 36 horas, é legítimo e necessário
O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil, incluindo propostas como o fim da escala 6×1 e a diminuição da carga semanal para 36 horas, é legítimo e necessário. Repensar o tempo de trabalho, com foco na saúde e na qualidade de vida dos trabalhadores, é uma pauta relevante. No entanto, esse debate precisa avançar com maior responsabilidade quando analisado sob as óticas setorial e regional.
Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), assim como em grande parte do país, a estrutura produtiva é fortemente concentrada no setor terciário, especialmente no comércio e nos serviços. Nesses contextos, uma mudança legal impositiva e uniforme tende a gerar impactos econômicos relevantes, muitas vezes subestimados no debate nacional.
No centro dessa discussão está a produtividade do trabalho, entendida como a relação entre o valor gerado pela economia e o total de horas efetivamente trabalhadas. Em termos simples, trata-se de quanto valor cada hora de trabalho consegue produzir. Países com elevada produtividade conseguem sustentar jornadas menores e salários mais altos sem comprometer competitividade, investimentos ou geração de empregos.
Essa, infelizmente, não é a realidade brasileira. Estimativas internacionais indicam que o Brasil produz cerca de US$ 20 por hora trabalhada — um patamar muito distante das economias desenvolvidas, onde esse valor supera com folga os US$ 100. Essa diferença não está relacionada ao empenho individual do trabalhador, mas a fatores estruturais persistentes, como baixa incorporação tecnológica, gargalos logísticos, ambiente de negócios complexo e desigualdade na qualificação profissional.
Na RMC, essas limitações se tornam ainda mais evidentes quando observamos a distribuição do emprego formal. Dados do Caged mostram que aproximadamente dois em cada três trabalhadores celetistas da região atuam nos setores de comércio e serviços. Em Campinas, esse percentual ultrapassa 80%. São justamente os segmentos onde a escala 6×1 é mais comum e onde a atividade econômica é intensiva em mão de obra, com menor grau de automação e forte dependência da presença física do trabalhador para a geração de receita.
Impor a redução da jornada nesses setores, sem um aumento prévio e consistente da produtividade, eleva de forma imediata — e artificial — o custo da hora trabalhada. Para muitas empresas, especialmente micro e pequenas, isso significaria a necessidade de contratar mais funcionários apenas para manter a operação, aumentando despesas de forma abrupta e, em alguns casos, colocando a própria sobrevivência do negócio em risco.
É importante destacar que a geração de empregos não é um processo automático. E mesmo que haja algum aumento de vagas, em um cenário já marcado por custos elevados e forte concorrência, o efeito mais provável é o repasse desses custos ao consumidor final, pressionando preços e reduzindo o poder de compra da população. E como se não bastassem tais desafios, é relevante lembrar que ainda convivemos com uma carga tributária que representa cerca de 1/3 do nosso PIB e em um momento de imensas transformações da tributação sobre o consumo, que durarão até 2033.
Experiências internacionais e nacionais bem-sucedidas de redução de jornada mostram que esse avanço costuma ocorrer por meio de negociação coletiva, transições graduais e contrapartidas claras em eficiência e produtividade. A imposição legal uniforme ignora a diversidade econômica entre setores e regiões e transfere para a legislação a expectativa de resolver um problema estrutural que vai muito além da carga horária.
Na prática, a redução da jornada deve ser consequência de um aumento sustentado da produtividade — e não um atalho para compensar sua ausência. O caminho mais consistente passa por investimentos em qualificação profissional, inovação, infraestrutura e melhoria do ambiente de negócios. Sem esses avanços, mudanças abruptas na legislação trabalhista tendem a fragilizar justamente os setores e os empregos formais que sustentam a economia brasileira e, de forma muito concreta, a nossa região.
Sanae Murayama Saito, Presidente do SindiVarejista Campinas e Região
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