Os primeiros sinais da crise do Grupo Casas Bahia apareceram no terceiro trimestre de 2022, quando a empresa registrou o primeiro de uma série de prejuízos trimestrais
O Grupo Casas Bahia informou no último domingo (16) que entrou com um pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, com o objetivo de reorganizar as finanças e renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas.
Segundo a empresa, o pedido se tornou necessário diante da piora da situação financeira, em meio ao cenário de juros elevados no país — que encareceu o crédito e aumentou os custos financeiros — e ao consumo mais fraco, que reduziu a capacidade de geração de caixa.
Essa, no entanto, não foi a primeira tentativa do grupo de reestruturar as finanças e preservar as operações. Os primeiros sinais da crise surgiram em 2022, quando a empresa começou a registrar sucessivos prejuízos trimestrais, em um cenário que se agravou nos anos seguintes.
Os primeiros sinais da crise do Grupo Casas Bahia apareceram no terceiro trimestre de 2022, quando a empresa registrou o primeiro de uma série de prejuízos trimestrais.
Naquela época, a companhia já havia começado a fechar lojas com desempenho abaixo do esperado e enfrentava vendas pressionadas por uma economia ainda enfraquecida pelos efeitos da pandemia de Covid-19.
No fim daquele ano, em meio ao cenário de alta dos juros iniciado em 2021, a empresa já buscava aumentar a rentabilidade e alcançar um crescimento mais sustentável, com foco na geração de caixa.
Em 2023, a companhia anunciou seu Plano de Transformação, baseado nesses dois pilares e com previsão de crescimento após 2025.
À época, o presidente da Via, então dona das marcas Casas Bahia e Ponto (antigo Ponto Frio), Renato Horta Franklin, afirmou que a companhia havia adotado uma estratégia de crescimento focada nas vendas digitais, na abertura de novos canais, na expansão de lojas e na aposta em fintechs.
“Nós entendemos que isso tudo foi feito. Construímos uma super plataforma, e ela já é grande. Então, entre investir para crescer mais essa plataforma ou pegar e rentabilizar o que tenho aqui, preferimos ganhar dinheiro com o que tem aqui.”
Ao longo daquele ano, no entanto, mesmo com o fechamento de dezenas de lojas e milhares de postos de trabalho, o cenário continuou desafiador para o varejo brasileiro, diante dos juros elevados, do crédito mais caro e do maior endividamento dos consumidores. Com o Grupo Casas Bahia não foi diferente.
Assim, apenas oito meses após o anúncio do plano, o Grupo Casas Bahia deu um novo passo na reestruturação financeira e pediu recuperação extrajudicial para alongar e renegociar dívidas estimadas em R$ 4,1 bilhões.
A homologação do pedido de recuperação extrajudicial do grupo ocorreu em abril de 2024 e suspendeu, por 180 dias, as execuções movidas por credores contra a empresa.
🔎 Qual é a diferença? Na recuperação judicial, uma companhia em crise financeira recorre à Justiça para negociar com seus credores. Na recuperação extrajudicial, a renegociação é feita diretamente com os principais credores e, posteriormente, submetida à homologação da Justiça.
Em 2025, como parte da transformação de sua estrutura de capital, o grupo conseguiu reduzir a alavancagem — ou seja, o quanto uma empresa depende de dinheiro emprestado para operar e crescer — e cortar em 75% sua dívida líquida.
No primeiro semestre deste ano, no entanto, a situação financeira da empresa voltou a se deteriorar, em meio a uma nova pressão sobre o caixa.
Apesar de ter reduzido a dívida líquida em R$ 2,7 bilhões no primeiro trimestre, o grupo logo sinalizou a necessidade de reorganizar suas obrigações financeiras.
No último domingo (16), a companhia reportou prejuízo líquido de mais de R$ 10 bilhões no segundo trimestre deste ano. Também informou que fechou mais de 200 lojas em uma nova etapa do plano de transformação anunciado em 2023, na tentativa de enfrentar o cenário mais desafiador para o varejo brasileiro.
Segundo o grupo, essa nova etapa incluiria mudanças na estratégia dos canais digitais, redução de estoques, cortes de custos e despesas, menor necessidade de capital para manter o negócio funcionando e busca por alternativas para reforçar o caixa e reduzir o peso das dívidas.
No balanço, a Casas Bahia também afirmou que tentou levantar recursos no Brasil e no exterior para reforçar o caixa, mas parte das negociações não avançou.
A desistência de um investidor e a dificuldade para obter novos financiamentos, em um cenário de juros altos, crédito mais restrito e maior incerteza nos mercados, também contribuíram para o pedido de recuperação judicial.
O Grupo Casas Bahia é uma das maiores varejistas do Brasil e controla marcas como Casas Bahia, Ponto, Extra.com.br e a fabricante de móveis Bartira.
O grupo também atua nas áreas de logística, tecnologia e serviços financeiros, como o Casas Bahia Pay.
A atual estrutura do grupo começou a ser formada em 2009, quando a rede Casas Bahia foi incorporada à Globex, controladora do Ponto, antigo Ponto Frio. Em 2010, a empresa adotou o nome Via Varejo, que passou a ser apenas Via em 2021 e, em 2023, mudou para o nome atual, Grupo Casas Bahia.
Nos últimos anos, o grupo também expandiu os canais digitais e investiu em comércio eletrônico, logística, meios de pagamento e serviços financeiros, além de adquirir empresas de tecnologia e ligadas ao ecossistema digital.
No segundo trimestre deste ano, a empresa reportou prejuízo de R$ 10,1 bilhões e anunciou novos planos para reduzir o tamanho da operação, concentrar esforços nos negócios mais rentáveis e cortar gastos para gerar mais caixa e equilibrar as contas.
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