Mais do que automatizar tarefas, a IA amplia a capacidade analítica das empresas, permitindo decisões mais rápidas, precisas e baseadas em dados
A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma promessa futurista para ocupar um espaço estratégico na gestão supermercadista. Embora ainda esteja em estágio inicial em muitas redes, a tecnologia já vem transformando a forma como supermercados definem preços, administram estoques, planejam compras, monitoram perdas e se relacionam com os consumidores.
Mais do que automatizar tarefas, a IA amplia a capacidade analítica das empresas, permitindo decisões mais rápidas, precisas e baseadas em dados. O movimento ganha força em um setor marcado por margens apertadas, busca constante por eficiência operacional e mudanças frequentes no comportamento de consumo.
Uma das áreas mais impactadas pela inteligência artificial nos supermercados é a operação de loja. Ferramentas de visão computacional estão transformando câmeras de segurança em plataformas de análise inteligente, capazes de monitorar rupturas de estoque, identificar produtos fora do lugar, acompanhar o fluxo de clientes e até auxiliar no dimensionamento das equipes nos horários de maior movimento.
Segundo Felipe Wasserman, professor de Trade Marketing da ESPM, a operação passou a ganhar previsibilidade em tempo real.
“A IA transformou as câmeras de segurança comuns em ferramentas de inteligência analítica. Na prática, o setor percebe redução significativa de perdas por furto, auditoria automatizada de gôndolas e análise do comportamento do fluxo de consumidores.”
O especialista destaca ainda a integração entre vendas e abastecimento como um dos principais avanços da tecnologia.
“Ferramentas de IA conectam o ponto de venda diretamente ao ecossistema de fornecedores, automatizando o reabastecimento com base na velocidade real de saída dos produtos.”
Na área comercial e financeira, a inteligência artificial tem revolucionado os processos de precificação e previsão de demanda.
Os algoritmos analisam históricos de vendas, sazonalidade, condições climáticas, perfil dos consumidores, comportamento de compra e até a validade de produtos perecíveis para sugerir ajustes automáticos de preços e descontos estratégicos antes do vencimento dos itens.
Para Roberto Flores Falcão, coordenador do curso de Administração da FECAP, o principal ganho está na precisão das decisões.
“Não se trata mais apenas de acompanhar o preço da concorrência. A IA entende quais produtos possuem maior potencial de venda em cada loja, para determinado público e em momentos específicos. Isso permite ajustar preços estrategicamente sem comprometer a margem.”
Segundo ele, a tecnologia também modifica o papel dos gestores.
“A inteligência artificial transforma o gestor de um ‘apagador de incêndios’ em um profissional capaz de atuar preventivamente, identificando padrões de perdas e anomalias antes que se tornem problemas.”
A previsão de demanda é outra área que vem passando por profundas transformações.
Modelos preditivos conseguem antecipar picos de consumo com base em fatores externos, como temperatura, feriados, eventos locais e hábitos regionais. Com isso, os supermercados reduzem excessos de estoque, melhoram o abastecimento e evitam a falta de produtos nas gôndolas.
Na logística, a inteligência artificial promove maior integração entre lojas, centros de distribuição e fornecedores. Sistemas automatizados ajustam pedidos conforme a velocidade real de vendas dos produtos, otimizam rotas de entrega e reduzem estoques parados.
“O conceito muda de ruptura descoberta para ruptura antecipada”, explica Falcão.
“O sistema identifica que determinado item poderá faltar nas próximas horas e dispara automaticamente o processo de reabastecimento antes que a prateleira fique vazia.”
Nos setores de hortifrúti, açougue, padaria e demais categorias de perecíveis, a tecnologia tem papel ainda mais relevante.
As ferramentas analisam ciclo de vida dos produtos, condições de armazenamento, temperatura e índices de descarte para determinar o momento ideal de reposição, remarcação e promoção dos itens, reduzindo perdas operacionais e desperdícios.
A inteligência artificial também avança nas áreas de recursos humanos e experiência do consumidor.
Fernando Moulin, CEO da Polaris, destaca a utilização crescente da IA em processos de recrutamento e seleção, especialmente em grandes redes supermercadistas que enfrentam alta rotatividade de funcionários.
“A IA ajuda a realizar a triagem de currículos, identificar profissionais com maior aderência cultural e acelerar os processos de contratação.”
Para o executivo, o maior desafio ainda está na mudança de mentalidade das empresas.
“É preciso sair do modelo de projetos-piloto permanentes e transformar a inteligência artificial em parte da estratégia de negócio.”
No relacionamento com os consumidores, programas de fidelidade alimentados por IA permitem a criação de ofertas altamente personalizadas. Redes como Walmart, Grupo Pão de Açúcar, Carrefour e Assaí já utilizam sistemas capazes de segmentar promoções de acordo com hábitos de compra, frequência de consumo e perfil dos clientes.
Para Vera Bermudo, CFO, docente da FGV e cofundadora da Wakaro, a principal transformação promovida pela inteligência artificial está na qualidade das decisões empresariais.
“A gôndola deixa de ser apenas uma prateleira e passa a ser um ativo estratégico. Os supermercados que estão obtendo melhores resultados são aqueles que deixaram de tomar decisões baseadas em percepção e passaram a agir com base em evidências.”
Ela ressalta que a tecnologia depende de uma estrutura organizacional sólida para gerar resultados.
“A inteligência artificial não cria eficiência por si só. Ela potencializa aquilo que a empresa já possui. Se existe organização, os resultados são ampliados. Se existe desorganização, os problemas também podem crescer.”
Apesar do avanço acelerado da tecnologia, especialistas concordam que o principal desafio ainda não é tecnológico, mas estrutural e cultural. Dados fragmentados, sistemas legados e baixa integração entre departamentos limitam o potencial da inteligência artificial.
As redes que obtêm os melhores resultados são justamente aquelas que tratam a IA como uma ferramenta de apoio à tomada de decisões e investem em integração de dados, capacitação de equipes e definição clara dos problemas que desejam resolver.
Em um setor historicamente orientado pela experiência e pela percepção dos gestores, o varejo alimentar começa a substituir o “feeling” por uma gestão cada vez mais baseada em dados, evidências e inteligência artificial.
Fonte: Mercado e Consumo
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